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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O nascimento e a morte são aspectos distintos do mesmo estado?

O título provém das palavras de sabedoria de Gandhi «O nascimento e amorte não são estados distintos, mas aspectos distintos do mesmo estado».

Criei este blogue há mais de três anos sem contudo ter decidido se lhe havia de dar um cariz mais intimo e pessoal ou mais profissional, na área da comunicação. Mas esses há-os tão bons e tão abundantes. Eis que acontecimentos recentes na minha vida tornaram claro por onde iria começar e que destino lhe dar. A perda recentemente da minha Mãe e o sentimento de orfandade despoletou a necessidade de escrever como forma de tentar compreender a morte. Mas nunca compreendemos. Como disse António Lobo Antunes [que recebera a minha mãe há anos numa consulta de urgência numa clínica privada], a Ricardo Araújo Pereira durante uma entrevista para a Visão "É uma incompreensão perante a morte". Por mais que estejamos à espera dela, que a aceitemos como uma libertação para quem sofre, é sempre uma trágica surpresa.

Por essa razão vamos ao baú de memórias, criamos fantasias, histórias e diálogos com os nossos entes queridos, de forma a prolongar a sua permanência em nós, para atenuar a dor ou não esbarrar imediatamente no vazio, sei lá!

Creio que por enquanto, a morte da minha mãe alterou a minha relação com Deus, de quem sempre fui crente. Quero acreditar que ele a recebeu e a envolveu no seu manto divino de paz e serenidade eterna e a deixou adormecer. Mas a frieza da morte fisica do corpo e o vazio que se sente deixa-nos dúvidas. "...tantas palavras qe não há para dizer o silêncio (Herberto Helder)". No entanto, creio nunca ter sentido tanta bondade e amor pelo próximo como nesse período, desde as cerimónias fúnebres aos dias que lhe sucederam.

Ter o coração a transbordar e um sorriso no rosto. A morte parece estar para além de nós, do entendimento, da nossa dor. Há o sentimento de perda pelo que nós perdemos e o de saudade por quem parte. Há ainda o sofrimento ao tentar imaginar o que essa pessoa ter
a sentido imediatamente antes de perder a consciência, se terá sofrido e pelo dúvida do que poderá existir para além da morte, para além do silêncio profundo e eterno.

O sentimento de amor transbordante é substituído ou coexistente com um vazio oco, um vácuo que não é nosso, não o nosso filme ou história da nossa vida. Dizem-me que sim, que é assim. Foram dias a receber manifestações e expressões de carinho e compaixão pelo que sentia e estava a Viver. E depois há Outros porém que estão centrados em si, na sua dor, nos seus problemas diários, na sua angústia egoista, não vendo para além de si aquele que acaba de receber um duro golpe. E há ainda quem pergunte como, onde é, como se vai, a que horas, que afirme não sei se posso ir, se tenho direito ao dia... Esquecem-se de agradecer o que têm e o que recebem na ânsia de vivier um futuro melhor. O futuro é hoje, temos que viver o presente, aprendendo com o passado sem apego nem desagrado mas guardando as boas memórias.

A morte fez-me sentir uma grande pulsão de vida. Senti que fui e sou amada, que amei e que sou capaz de contiuar a amar incondicionalmente, mesmo com o sabor salgado de uma lágrima. Aprendemos com o sofrimento a relativizar. Aceitamos coisas que de outra forma nos transtornavam e pareciam tornar a nossa vida insuportável. Conseguimos viver com ele mas ele estará lá sempre e em certos momentos parece insuportável. Alguém me disse que o tempo não atenua o sofrimento, o que acontece é que aprendemos a viver com ele presente em nós como uma ferida, a percorrer o caminho.(...) "essas memórias nos chegam à medida que vamos caminhando dentro delas (José Luis Peixoto)." Há, portanto, um caminho a percorrer e um processo de aprendizagem na e pela vida.

Quero viver e ser feliz pela minha mãe, uma maneira de garantir alguma eternidade...