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domingo, 6 de fevereiro de 2011

A visita à avozinha no eco-Alentejo


O termo avozinha é fruto da saudade e virtuosidade que o tempo transporta. Apesar do seu aspecto frágil, corpo curvado e vestes negras de luto, o seu carácter e capacidade de trabalho eram de uma grande força e tenacidade. Vivo os dois primeiros anos do ensino primário no Alentejo. Este período marcou-me e moldou-me de forma subconsciente o carácter e a memória pelo apelo a uma identidade cultural e territorial que só anos mais tarde percebi. A ligação que a minha avó materna Casimira, a única que conheci, tinha com a terra era de uma sabedoria e respeito recíproco como pouco encontrei até hoje. Os dias singelos destoavam no tempo e no espaço do meu quotidiano anterior na àrea metropolitana de Lisboa, na cidade satélite de Almada, que naquela tenra idade considerava cosmopolita e até evoluído comparativamente com o baixo alentejo. O ritmo era ditado pelo trabalho exaustivo da minha avó ora na venda esporádica dos seus produtos hortícolas no mercado de Beja, na sua horta no campo e nos quintais da casa branca. Não havia tempo ou espaço para muitas brincadeiras com outras crianças da minha idade. Inventava-as ou criava pequenas e ocasionais oportunidades de estar com elas no entardecer. Ficaram-me porém alguns ensinamentos e práticas do quotidiano que agora me parecem preciosos ou peculiares:
- Apanhar pequenas pedras ou gravilha no caminho de regresso da pequena horta no monte para dar às galinhas para mais facilmente porem os ovos;
- A banheira de metal no quintal da casa que retinha a água da chuva e que servia para rega das plantas (o aproveitamento das águas domésticas era um hábito religiosamente cumprido);
- A sesta reparadora no Verão à hora de calor abrasador permitia aproveitar depois as horas do final do dia de forma mais energética;
- A oferta de flores ou legumes à minha professora da primária, D. Maria de Jesus, era uma forma de manifestar a estima que a minha avó sentia pelo serviço público de valor que era prestava à sua neta e pequena comunidade;
- O azeite colocado sobre um carrapato que se alojasse num animal doméstico ou na pele humana era uma forma de o fazer soltar;
- O cheiro a couve fresca acabada de apanhar no quintal que exalava do caldo verde cortado finissimamente em cima da mesa da cozinha com recurso a um moinho manual e o respectivo aproveitamento dos caules mais duros e folhas menos tenras para juntar à ração das aves como galinhas, patos e perús;
- O banho tomado nos primeiros tempos num alguidar de metal com água aquecida ao lume em grandes panelas;
- A braseira colocada na mesa de madeira da sala que era coberta por uma toalha que tinha a dupla função de reter o calor sobre as pernas;
Enfim, o respeito pela terra e o recurso às hortas domésticas, municipais ou partilhadas que agora começam a ser também uma realidade nos centros urbanos trouxeram-me estas memórias infantis da minha visita à avozinha, no meu "eco-Alentejo".