Vem este novo texto a propósito do filme documentário do cardápio da última edição do Festival IndieLisboa,
Linha Vermelha de José Filipe Costa sobre o documentário Torre Bela, filmado em 1975 pelo realizador alemão, falecido em 2010, Thomas Harlan. Um documentário sobre um documentário.
Se o visionamento do primeiro documentário há meia dúzia de anos no cinema King já me havia suscitado tantas interrogações e introspecções, esta nova revisitação do filme que é também ela uma reflexão sobre o cinema e a literacia das imagens, que é também uma tese de doutoramento criou-me um fiar de novas reflexões e interrogações. Para além do merecido prémio da CGD para melhor curta metragem nacional, deste jovem realizador que tenta desconstruir o filme documentário, realizado na herdade do Ribatejo Torre Bela, quem assistiu à exibição e conversa posterior com o realizador no passadofim-de-semana ganhou também a oportunidade de participar e experienciar um momento único de partilha do olhar do outro e da interpretação expressa de alguém que foi mais fundo bem como das vivências e testemunhos de quem presenciou e viveu aqueles momentos marcantes na sua história pessoal e na vida de um país embrionário no processo de transformação democrática. Esses testemunhos que presenciei passados mais de 35 anos dos factos e mais de cinco anos do filme que originou este novo olhar, foram de um dos protagonistas da história da ocupação da Torre Bela, o Wilson e da Fátima, neta de outra das protagonistas do filme e da experiência pioneira e piloto da cooperativa popular ou “
vaulxcooperative”.
Esta experiência cultural e perspectiva sociológica contribuiu em muito para o meu enriquecimento pessoal e levou-me a esmiuçar a minha memória de infância que por vezes temos tendência a efabular ou crer ser produto da imaginação. Recordo de forma pouco nítida, uma das primeiras imagens e acontecimentos da minha infância, no Verão de 1975, com a notícia da ocupação da casa da minha avó Casimira no Alentejo em pleno período revolucionário do país. Partimos em família em auxílio e apoio à minha avó e reunimo-nos com restante família, vizinhos e outros tantos que se juntou na rua em frente à casa no Bairro de N. Sra. Da Conceição, à espera que a polícia ou GNR lá do sítio obrigasse a sair ou a expulsar as duas ou três famílias que tinham ocupado a casa tipicamente alentejana desabitada desde há alguns meses, em virtude do facto da minha avó ter ido ajudar uma filha mais nova que vivia no Ribatejo e que tinha sido mãe recentemente.
Estas famílias tinham ficado durante algum tempo na minha mente e memória, como pessoas brutas, clandestinas e ilegais que haviam cometido um acto punível e vilipendiado o espaço íntimo de uma idosa proprietária, que era também a nossa casa. Mais tarde, vivi com ela e passei algumas férias de Verão e recordo-me de vermos e comentar sobre alguns objectos da casa que testemunharam aqueles acontecimentos e que tinham as marcas daquela ocupação desajeitada e quiçá necessitada.
Ideologias e moralismos políticas à parte, o que me apraz aqui dizer e partilhar foram estes meus momentos de reconciliação com o outro lado de ver as coisas e o outro lado da verdade que me foram suscitados pelo facto de ver o documentário Linha Vermelha sobre o documentário da Torre Bela. Aquelas pessoas estavam a viver um momento único e sem qualquer referência ou paralelo quanto à legitimidade dos seus actos face à nova situação que o pais atravessava. Mesmo que não se tivesse justificado, há a história por trás dos factos e das pessoas e o impacto do país na vida dos ocupantes e na memória sobre esse período. E como se sentiriam no momento em que foram expulsos ou saíram da casa perante o olhar dos outros e o nosso olhar? Que fragilidades, desespero ou causas os motivaram? Muitas são as interpretações e narrativas possíveis que fizeram a minha leitura actual da Torre Bela uma Torre de Babel.